O canibalismo comunista da Veja
Postado por Juremir Machado da Silva, em 24 de maio de 2013, no Correio do Povo
Praticamente nenhuma pessoa séria leva a revista Veja
a sério. Sabe-se que é uma publicação humorística. Faz um humor meio
sem graça, apelativo, rasteiro, como é o humor dominante na mídia
brasileira atual. Mas há um traço de original nesse humor: ele é
ideológico.
Nesta semana, porém, Veja caprichou no ridículo. O
texto “Os ossos do socialismo” é uma obra-prima de charlatanismo, de
reacionarismo delirante e de besteirol histórico. Segundo o repórter,
que assina a matéria, há uma relação direta entre canibalismo e
comunismo. Em 1609, os primeiros colonos ingleses instalados em
Jamestown, na América, loucos de fome, comeram os seus semelhantes.
Arqueólogos descobriram os ossos de Jane, vítima do canibalismo dos seus parceiros de aventura no Novo Mundo. A revista Veja
não tem a menor dúvida: “Jane foi devorada por seus pares como
consequência do fracasso do modelo de produção coletiva implantado nos
primeiros anos da colonização dos Estados Unidos. A propriedade era
comunitária, e o fruto do trabalho era dividido igualmente entre todos.
Era, portanto, uma experiência que antecipava os princípios básicos do
comunismo. Deu no que deu”.
Uau! A cadeia estabelecida é imperativa: o coletivismo levou à
preguiça, que levou à improdutividade, que levou à fome, que levou ao
canibalismo. A saída viria com a propriedade privada. É reportagem para
prêmio Esso de estupidez. Longe de mim defender o comunismo. O buraco é
mais embaixo. Vejamos.
O autor tem a segurança dos tolos encantados com o lugar que ocupam
na escala social: “Se não fosse o sistema fracassado, a situação
dificilmente teria chegado a esse ponto”.
Todos os demais aspectos de adaptação e de conjuntura são
desconsiderados. O reducionismo ideológico surge como uma iluminação. A
solução chega com um novo administrador, que impõe à propriedade
privada: “A decisão despertou os traços hoje bem conhecidos do
capitalismo americano: o empreendedorismo e a aptidão para a
competição”. Disso teria decorrido que, em 1775, os americanos “já eram
mais altos que os ingleses”.
Tem gente batendo os dentes nos consultórios de dentista, onde Veja é campeã de leitura, de tanto rir. É um riso nervoso.
Nem os primatas do Pânico fariam melhor.
Para a pragmática revista Veja, no coletivismo,
entre trabalhar e comer seus semelhantes, as pessoas escolhem a segunda
opção. Um colono comeu a esposa grávida. Veja, enfim, descobriu a origem da expressão “comunista comedor de criancinha”.
Na verdade, encontrou algo mais grave, o comunista comedor de feto.
Sem contar que Duda Teixeira chegou ao elo perdido, a origem sempre
procurada do capitalismo, o estalo: “Foi essa mudança, nascida do trauma
de um inverno em que colonos caíram na selvageria que permitiu aos
Estados Unidos se tornar o maior gerador de riqueza do planeta e o berço
do capitalismo moderno”. O capitalismo nada mais é que uma reação ao
canibalismo comunista. Agora é científico.
Não fosse grosseiro, eu diria: é a coisa mais idiota que li.
24 de maio de 2013 http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=4274
domingo, 2 de junho de 2013
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário